25 August, 2009

Vietnã

Tudo começou no ano de 1948, quando um homem conheceu uma mulher. Ambos estavam em um café no centro de Nova Iorque, ambos eram jovens. Ela atendia pelo nome de Michelle, ele era chamado de Daniel. A mulher trabalhava como garçonete ali mesmo, enquanto o homem era tenente do Exército norte-americano.

Todos os dias Daniel parava na humilde loja para tomar seu café da manhã, sempre os mesmos café e torradas com ovo. Com um sorriso estampado em sua face, Michelle o atendia muito bem quando era a responsável pela mesa do rapaz. Suas colegas ficavam fofocando a respeito, mas ninguém pode saber o desfecho das histórias.

Quando o jovem reparou no excesso de simpatia da garçonete resolveu tomar uma atitude e a chamou para ver um filme no novo cinema que abrira na cidade, claro, após um bom jantar em um restaurante nem tão bom. Mas as companhias pouco se importaram com o que o graçom os servia. Estavam sentados ali, hipnotizados um pelo outro, por uns instantes o mundo parou de existir e o tempo passou a ser totalmente subjetivo. Acabado o jantar, foram rumo ao cinema, mas Michelle morava ali perto e resolveram subir para descansar um pouco.

Ela abre a porta e os dois entram. Um apartamento de um quarto, uma cozinha, um banheiro, um armário. Agora havia duas pessoas no local. As cortinas se fecham, não há mais testemunhas do sentimento compartilhado naquela noite. As roupas vão saindo automaticamente, como que dando licensa ao que iria acontecer. Deitando lentamente na cama, trocando beijos e toques...

A partir de então, os namorados passaram a se visitar quase que diariamente, não apenas pelo sexo, mas pelas coisinhas especiais que um fazia ao outro. Passaram-se vários meses amando e amando. Em certas ocasiões isso até se tornava um empecilho ao trabalho de todos os dias, mas nada que não fosse contornável.

Casaram... viveram todos os dias como se todos os dias fossem de sol, como se todos os sóis sorrissem para ambos, como se todos os sorrisos fossem brancos. Filhos ainda não estão nos planos, querem viver para eles mesmos por um tempo.

Então, em 1949, chega um telegrama para Daniel. Comunicava o seu convocamento para fortalecer as forças norte-americanas no combate ao inimigo Vietnã. Ele fica estático olhando para o pedaço de papel, enquanto Michelle se apóia em suas costas chorando o perigo iminente que o marido enfrentará. O casal se abraça e, sem mais palavras, o agora homem pega sua mala e vai cumprir seu dever.

A mulher fica olhando o marido entrar no carro e partir. Lágrimas dos olhos caem, mas ela fica sem ação, sem palavras, sem forças. Agora o futuro pertence ao mundo dos sonhos e apenas a ele.

Daniel com seu rifle luta para sobreviver a cada dia que passa no front de batalha. Seus companheiros caem um a um com o avanço lento das tropas em solo vietnamita. O ambiente horrendo dos campos de batalha seduz o rapaz a desistir de tudo, mas há sempre uma esperança que o mantém são. Todos os dias a foto da mulher lhe dá forças para tentar ficar vivo até enfim poder voltar à sua terra natal, onde mora sua adorada Michelle.

Ela que agora vive sozinha, com apenas sorrisos amarelos a mostrar. Seu brilho foi embora com o tempo em livre cativeiro. Suas amigas tentam consolá-la, mas todos sabem que não há como tirá-la daquele estado.

Todos os dias lembrando do que passou e caindo mais na escuridão. O sol não se atreve mais a tentar entrar em sua casa. Nenhum animal ousa passar da cerca. As flores temem florescer em seu solo. Tristeza e amargura demais assombram o local antes de pura felicidade.

A guerra acaba para Daniel. Conseguiu ser liberado por razões de saúde. Finalmente poderá abraçar mais uma vez o amor de sua vida. Não esconde mais o sorriso, mesmo que com algumas cicatrizes internas da guerra. Parece que o paraíso não sumirá nunca mais de sua vida.

Michelle está terminando os serviços domésticos quando seu olho se direciona à janela. Olhando para a rua, vê seu homem chegar. A espera durou muito, mas finalmente teve um fim. Correu para a porta e a abriu, com o maior sorriso no rosto. Ficam parados por uns segundos se entreolhando. Se beijam entrando em casa. Desesperadamente sentem o outro entre seus braços. O sol volta a brilhar.

Os dias passam, mas algo não parece mais tão certo. Mesmo vivendo um sonho, algo está diferente. Parece que a guerra o mudou. Parece que a espera a mudou. Brigas não são incomuns entre o casal. Não há a mesma compreensão do outro como um dia houve.

O dia chega. Ambos se sentem infelizes no relacionamento. O advogado bate à porta... e vai embora com papéis assinados na pasta. Divórcio foi a melhor solução que os dois encontraram.
Daniel tenta um diálogo:
– Você mudou...
– Sim, você também...

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